quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Quinta-feira.

Em um pequeno movimento desengonçado ao andar atravessei a rua, ela estava escura e vazia com sombras dançando enquanto eu andava. O frio me invadia o estômago e Rafaela cantava o choro de uma melancólica musica de um artista desconhecido de um boteco de estrada. Chacoalhava a garrafa de vinho barato gesticulando as palavras da musica. 

Poderíamos perder a vida ali mesmo naquela rua vazia e emburacada de mágoas. Só de fechar os olhos conseguia viver uma vida inteira sem esforços. Ao dobrar em um daqueles becos desconhecidos encontramos uma rua de diversão barata e vulgar, eu não estava mais preocupada com o que poderia nos acontecer ao atravessar toda aquela anarquia, estava anestesiada de tanto dor. 

"Ei, senhorita! Poderia me ceder um cigarro?" falou um velho bêbado com um olhar mal encarado, não olhamos pois não conseguíamos nem distinguir as palavras com a boca seca. Mulheres da vida exibindo as cirurgias plásticas pagas por gringos solitários, estavam dançando enquanto desviávamos da rua em que estavam. 

Encontramos um posto de gasolina do outro lado da rua, Rafaela falava do quanto bêbada estava e o quão sóbria havia ficado ao ultrapassar toda aquela linha reta. Pus ela em um táxi e aguardei um tempo ao lado de um orelhão público que ficava logo na entrada da lojinha de conveniência do posto, um pouco de sossego havia me dado. 

Acendi um cigarro e ao olhar para o céu notei que tínhamos algo em comum, estávamos prestes a desabar com uma tempestade a qualquer momento. Haviam mulheres da vida e um travestis conversando e bebendo logo mais a frente, havia também um grupo de homens próximos de um carro velho, falavam do quanto loucos haviam ficado na noite passada. Eu estava esperando por algo, mas não sabia exatamente o quê. Uma mulher que usava uma saia longa e uma blusa transparente vermelha com um lenço na cabeça e batom de quinta na boca e no dente inferior se aproximava de mim.

- Gostaria que eu lhe mostrasse o futuro? - Perguntou ela com um sorriso malicioso. 
- Não, obrigada! - respondi antes que me rogasse uma praga.
- Você não está entendendo, preciso que veja algo! - Insistiu a mulher usando de jogos psicológicos.
- Acredito que a senhora não terá nada a dizer do que eu já não saiba. 
Ela me encarava com um rosto fechado de tantas marcas de expressão vivas em um rosto morto, e com a baca borrada com o batom barato disse-me.
- Aprenda observar o que há preso dentro dos seus olhos, pois do contrário ficará presa! - saiu como se estivesse hipnotizada, me olhando de esgueira, mesmo antes que eu percebesse ela havia sumido na penumbra da noite.

Um ar frio zanzou lentamente subindo das minhas penas até minha nuca, e ao olhar o céu novamente, uma gota caiu dentro do meu olho esquerdo. Por uns segundos não conseguia abri-lo, e sem mais demora a chuva caia como se estivesse com pressa de lavar a alma daqueles que se sujavam com vulgaridade da rua todas as noites. As palavras daquela cigana me tomara todo meu corpo, saia rodopiando pela minha pele enquanto um homem com saxofone expulsava os fantasmas da esquina para que achassem seus caminhos.

Eu não me contive, e fui seguindo na chuva até aonde àquela melodia me levava, meus olhos tomavam uma pausa para descansar, fechados, descarregando a composição da minha alma inteira a deslizar pela minha boca, pescoço, peito, umbigo até a sarjeta, até encontrar as outras almas no esgoto onde os ratos faziam a festa com aquele jazz todo. E o frio que me açoitava me permitindo-me sentir que ainda estava viva, que não poderia mais viver estando morta por dentro e deixar minha alma presa a esse incerto em que me tornei.

Aquela pregação toda que saia do céu e  por um acaso escorregavam aos meus ouvidos, me jogando contra o que eu evitava a anos, contra as gotas que caiam em meu juízo e a minha louca sobriedade. Respirei cada gota de chuva até me desfazer em uma.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

2:00 a.m da outra vida.

2:00 a.m marca o relógio, sem querer acordei com o temporal que caía lá fora.
A janela com suas sombras dançando entre o reflexo das luzes da rua e os pingos de chuva que caíam respectivamente invadiram meu quarto. Ao olhar pela janela, vi que a cafeteria da esquina estava aberta, sem que o acordasse, fui de encontro com o momento.
- Um café, por favor! -Pedi a garçonete, com a cara melancólica, ela portava uma foto de um homem com a cara de malandro, logo no bolso abaixo no avental. Devia ser seu namorado, pensei.
-O café, senhorita!
- Obrigada! - Respondi sem demora.
Observando a minha frente, um rapaz sentou-se a mesa que fazia de companhia a minha. Seu olhar penetrou no meu, e os dentes a mostra me deu uma cerimônia. Assenti que sim. O rapaz havia se sentado na minha mesa. Não nos falamos por uns minutos, o café esfriava e a chuva não parava.
- Você vem sempre aqui? - Não conseguia pensar em nada melhor para perguntar!
- Não! E você? - perguntou se fechando.
- O que você faz aqui? - Perguntei engolindo a pergunta que havia me feito. Ele riu desconcertado, triste, mas mesmo na invasiva que fiz, respondeu sem que o silêncio voltasse a nos invadir.
- Fui pedir para que ela voltasse comigo, minha ex. Eu sei, parece patético não é?
- 2:00 da madruga?! - No olhar daquele homem dava-se para ver aquela mulher em que o atormentava as lembranças.
Assenti que sim, e demos risos.
- Sim, é patético! - E o silêncio outra vez nos incomodava.
- Meu namorado mora naquele prédio do outro lado da rua!
- Sorte a nossa, não é? - E os olhares não se cansavam.
-  Estamos fechando! - Comunicou a garçonete do café, acabando com a festa dos solitários.
- Eu pago! - Disse ele sem que eu pudesse o  alcançar com uma resposta. E ainda perguntou:
- Posso te acompanhar? Digo, até o outro lado da rua?
Não via problema em deixá-lo me acompanhar. Pobre homem, pensei!
Assenti que sim. O frio me tomava conta, atravessamos a rua e logo naquela melancolia agradeci.
- Espere! - Disse sem que ele fosse muito longe. Ele se aproximou sem entender. Eu o beijei no rosto. Ele me abriu um sorriso amarelo, como quem quisesse desabar ali nos meus braços. Não o vi mais, mas eu sabia que precisava estar ali, naquela noite. Fiquei com uma estranha sensação de que o conhecia em outra vida.